Nossa casa, seu restaurante

3 de junho de 2016 – NA IMPRENSA – Matéria publicada no site Wondercook, por Débora Fortes

Anos atrás, antes das experiências gastronômicas virarem modinha, eu li sobre um casal de brasileiros que oferecia jantares fechados em sua casa ­­– em Paris. Imediatamente, me transportei para esse cenário desconhecido, imaginando como seria montar um negócio assim numa das maiores concentrações de chefs por metro quadrado. E confesso, também, que me deu uma curiosidade imensa de saber como tudo funcionava. Queria eu ter a coragem de abrir minha casa para pessoas desconhecidas, atraídas pela promessa de comer algo diferente.

E um dia lá fui eu para Paris, rumo ao Chez Nous Chez Vous. Ansiedade e expectativa estavam nas alturas. Fui a primeira a chegar, e os chefs Célia e Gustavo Mattos me receberam na sala do seu charmoso apartamento no 15o. arroundissement de Paris. Entre uma taça de espumante e outra, foram chegando todos os “convidados” da noite, mais dois casais e o sobrinho dos chefs, o Juliano, de passagem por Paris. Éramos todos brasileiros.

O menu do jantar é surpresa, e os próprios chefs vão servindo as criações que saem de uma cozinha superequipada. Já surpreendem no couvert. Para cada um dos convidados, o pãozinho acompanha uma manteiga aromatizada de flor de sal de diferentes partes do mundo (a minha era do rio Murray, na Austrália). Depois vem uma sequência de quatro pratos: creme de abóbora perfumado com pérolas de trufas; ovo perfeito com camarões; lombo de bacalhau ao molho de champanhe; confit de pato, cozido lentamente, a 60 graus, por 51 horas. Na França como os franceses e, claro, o cardápio incluiu uma seleção de queijos e ainda duas sobremesas.

Foi uma noite inesquecível. E talvez, também, o jantar mais caro da minha vida, considerando a cotação atual do euro. Com o rateio dos vinhos e espumantes entre todos, foram uns 200 euros (bem mais do que paguei, semanas depois, para almoçar num estrelado do Michelin). Então, um amigo me questionou: você pagou isso para comer num restaurante de brasileiros em Paris? Paguei e não me arrependo. Deixei os euros, mas levei risadas, sabores, alguns amigos e uma vontade imensa de fazer algo assim algum dia na vida.

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