Celia na revista Ethos

21 de julho de 2017 – NA IMPRENSA – Matéria publicada na Revista Ethos

É sempre sobre a linha do horizonte e a fome do que há além. Arte, busca eterna da expectativa no retrato emoldurado, como se, num devaneio, ela absorvesse o desejo da paisagem sem fim, da imortalidade, do paraíso do sonho definitivo. O final de uma obra é a perspectiva inversa de uma vida: expõem, em cortes finos, a chama inicial, o momento em que a carne e seu alimento já não bastam, e as pinceladas revelam o desejo de navegar o manto negro pelas ondas do sol, pelas sombras de Goya, pelas cores das nuvens de Albrecht Altdorfer, pois sempre há por onde andar, o que provar e para aonde ir. Então, após o grande mar e além do deserto, através dos campos e matas e montes onde o vento cansou de soprar, quando a obra se manifestar, não seremos mais os mesmos. Mas a pergunta que leva ao desfecho ainda estará lá: antepasto, prato principal, sobremesa e o que há além da mesa…
É sempre sobre origens e horizontes. E sobre o que legamos ao mundo entre esse meio tempo, vírgulas nas receitas do céu. Uma palavra seria bom, e aí vai aquele momento partilhado por Beethoven quando, completamente surdo, olhou para trás e encontrou a nona perspectiva: Alegria! A imortalidade se resume à tentativa de resposta, quando emerge, após o árduo caminho, a degustação e provação da arte.
Aquilo que nos define é a capacidade de destilar além dos contornos e cores que querem definir o ser. A Celia vê arte num torresmo bem feito dum boteco simples e profundidade na monocromia de um canavial da mesma forma que aprendeu a ver ingredientes frescos nos lugares que o mundo queimou e moeu. Não nos surpreenderia se, numa noite qualquer, ela e o Gustavo fossem pegos servindo presunto Jamón e vinho Jerez a um mendigo hospedado numa sarjeta três estrelas. Quando conhecemos gente assim, sabemos que Dionísio, deus das festas e do vinho, deixou seres de sua eterna mitologia entre nós, e que não errou a mão. Os deuses se foram, mas o amor à boa comida é perpétuo.
Sabemos que Celia escreveu diversas receitas através do tempo, mas uma é reveladora de seu amor pela arte: se tornou a primeira mulher do mundo na Academia Francesa de Culinária. E assim escreveu seu nome na história e o nome de Barra Bonita também! Em sua homenagem, em alguma mesa, Dionísio, Iemanjá, Tupã e os Orixás devem estar brindando com a cana que virou cachaça e com a água transformada em vinho!

Victor Brasil e Janaina Nees Dias Cescato

Celia Miranda Mattos
Celia Miranda Mattos